sexta-feira, abril 07, 2006

2 - Leão


Já nem sei há quanto tempo aqui estou. Eu e Amparo. É curioso, lembro-me bem dos tempos anteriores à vinda para o convento, mas se me perguntarem quando vim, já não faço ideia. De então para cá os acontecimentos tornaram-se uma amálgama indistinta de passado e presente. O tempo antigo, linear e datado, deu agora lugar a uma quadrícula ecrãs onde, em cada um, repassa sem descanso a mesma cena. Quadrícula que cresce ao ritmo de cada cena vivida. No último ecrã estou eu sentado ao computador a escrever esta prosa. A cena dura o que durar este acto, incluída a entrada de Amparo com uma caneca fumegante de café com bagaço. Há um ecrã onde os enchidos do fumeiro ardem como tochas enquando um homem e uma mulher, com ar de caseiros, assomam à porta com baldes; noutro, a cama onde eu e Amparo dormimos, ela ressona, tosse espirra, peida-se, vira-se para a parede, volta-se para mim, agarra-me a piça e espicaça-me, queres festa, eu viro-me para ela, viro-a de costas para mim, ponho-a de joelhos e dou-lhe uma de apanha cavacos. Noutro a porta abre-se, Amparo entra com um braçado de lenha, grita-me fecha essa merda questá um frio do caralho, e a seguir dá um coice na porta e atira-me com a molhada para cima e grita-me, prá próxima ou vais tu apanhá-la com os cornos ou morres enrregelado que eu vou é dar de frosques meu cabrão inútil. Aí eu levanto-me do banco junto ao fogão...etc, etc, etc, etc, não vale a pena contar a cena doméstica toda. Estou a vê-la, mas já se sabe como acabam este tipo de cenas.
Para quem não percepciona o real como eu, isto não passará de um puzzle inintelígivel, de idiotice pura ou, se calhar, de pura esquizofrenia. Mas esquizo sei que não é, porque não é a personalidade que se desdobra, mas são as cenas que pairam.
Apenas refiro esta bizarria da minha mente, porque as cenas que visiono acordado me fazem não poucas vezes viajar pelo passado ante-conventual e ali repescar as lembranças que dele me restam. Desta forma acabo por prolongar as cenas com sequências e planos onde tudo se mistura. É o que acontece na cena onde onde o filho do caseiro abre a porta e entra com ele um cão lanudo e escanzelado e a tremer de frio que se vem enrroscar nos meus pés. Faço-lhe uma festa e a seguir vejo-me garoto a correr atrás do Leão pela álea de acessoa à casa da quinta dos meus avós. Leão corre aos saltos para o portão de ferro, a ladrar às ovelhas e aos cães que passam pela ladeira. Corte. Leão arrasta-se atrás do avô Sebastião que se dirige para a vinha de Fernão Pires atrás do cemitério. A avô leva ao ombro a espingarda de cartuchos de dois canos com que costuma ir à caça. Sigo-os de mãos nos bolsos dos calções e olhos fitos nas peladas do leão e nos fios de sangue que lhe escorrem dos genitais. Agora, no canto onde começa a vinha, junto ao muro de pedra, o avô pára junto a uma cova que o criado Artur acabou de abrir ali. O avô baixa-se, empurra o Leão para junto da cova, coloca-o com as patas de um e outro lado da cova e ele ali fica quieto. O avô afasta-se um bocado, pede-me a mim e ao Artur para nos colocarmos a seu lado, aponta a espingarda ao Leão que nos olha com olhos de pedinte e dispara. O Leão cai na cova e eu saio de cena a correr. A porta abre-se de novo, entra o filho do caseiro e o cão que o acompanha vem enroscar-se nas minhas pernas...

sexta-feira, março 24, 2006

O tempo das Pedrinhas - A Aurora


Eram os dias em que o mundo ia acabar. Lembro-me que a coisa começou precisamente no dia dos meus cinco anos e prolongou-se por mais uns quantos, poucos.
Morrer aos cinco anos não era nada agradável, quando eu vivia rodeado de adultos adolescentes e velhos que já tinham gozado mais da vida que eu. Era uma injustiça porque logo tinha de acontecer comigo. Não é que tivesse grandes projectos, não tinha nenhum. Os meus projectos eram o momento seguinte. Era brincar com a Lurditas, a Rosa o Luís, ou ir até à poça da almotaceria ter com o Mário-paródia, o Agostinha-pera-madura, o Fernando-coveiro, o João-cagaças, o Coelho-ferrador, o Meia-pele e a escumalhita da aldeia que por lá aparecesse, para nos rebolarmos em pelota na terra chocolate e megulharmos logo nas águas de rega, perante os olhares entre pudicos, invejosos e escandalizados dos meninos Montenegros, sempre bem vestidinhos, com roupinhas brancas a rebrilharem entre os veludos de cores variadas, plantados e alinhados junto ao muro alto do quintal do solar. Era ver os meus avós a jogarem à sueca com a D. Bela e o Sr. António, ou o primo Tito com Marta e a enfiar-lhe as mãos pelas pernas acima por debaixo da camilha. Era ouvir o criado Júlio César a contar estórias de outro Júlio César, que matara franceses e bárbaros e tinha sido ele próprio matado por um bruto. Outra possibilidade, Era aproveitar a hora da sesta dos meus avós e a sonolência da Tia Rosa, e baldar-me com o pessoal para o tanque da quinta, na alto da colina atrás da casa, entre o cemitério e a palheira, à sombra de uma mata de acácias, pinheiros e eucaliptos. Era sempre um risco, porque a cena acabava sempre concerto de chinela dado pela tia Alzira na palheira, com o salve-se-quem puder para dentro da palha da, ou a pela encosta abaixo com as roupas num braçado. E eram ainda outras coisas de que agora não me lembro e também não quero estar a inventar tudo.
A notícia aterradora colheu-me de surpresa ao início da noite, depois do jantar. Um jantar que me deu direito a ovo estrelado com batatas fritas, o meu presente de aniversário.
Cheguei à janela da cozinha, um balcão sobre o vale que separa as colinas sobre cujo dorso a aldeia se alonga. A ribeira das nossas banhocas entra no vale vinda de nascente contorna o lameiro frente à casa e ruma ao sul pelo meio do vale que se alarga até entrar noutro vale muito mais largo onde encontra outros ribeiros que a outros se juntam até se encontrarem mais além o rio Mondego. Ou será o Zêzere? Bem, não interessa, todos os ribeiros acabam por acasalar as suas pequenas águas com outras maiores.
Pelo macadame acima, do lado poente, subiam as silhuetas dos avejões, e no céu, sobre elas, um remoinho de luz entre o laranja-pastel e o tijolo-vivo apresentava um por-do-sol tardio, como se o astro se tivesse esquecido das horas da deita.
Essa coisa das horas a mim não me dizia grande coisa. Para começar a minha hora da deita era quando tinha sono ou, o mais tardar, os meus avós se recolhiam. Regia-me então, como agora, pelo levantar, deitar, comer, ir, ficar, brincar, dormir e coisas afins de todas estas.
O estranho daquilo não era só haver sol de noite, era a conjugação do fenómeno com o movimento anormal de beatas e as badaladas persistentes e dolentes que, dei-me então conta, não se tinham calado todo o santo dia.
Quando perguntei à Ti Rosa o porquê de tudo aquilo, disse-me que ia acabar o mundo e o sino era para chamar as pessoas para rezarem e estarem sem pecados quan fossem ter com Nosso Senhor. - E não pedem para o mundo não acabar?, e como acaba o mundo? e nós também morremos?, o os meus irmão? e a minha mãe e o meu pai? e àvó e o avô, e os primos? e a escola também acaba? - Acaba tudo, tudo! é o fim, menino!
E eu aterradíssimo, que não tava nessa de nem chegar ao dia seguinte. Acudiu-me àvó Ninhas a numa gargalhada-se de alva dentadura arreganhada. - Não lhe ligues que é doida varrida. Cale-se sua maluca, não vê que está àssustar o menino?!
A minha avó sabia serenar-me. Eu acreditava em tudo oque me dizia. Até nas estória que contava? - A sério avó, perguntava sempre e elala sempre confirmava, - Sério, filho!
Serenei de imediato, acompanhei a sueca ao serão e adormeci ao colo do avô. Só acordei de manhã e nem me lembrei de que o mundo afinal não tinha acabado. O primo Jéjé, que estudava para engenheiro electrónico e era apaixonado pela minha tia Lita, dizia o Tito, é que veio aclarar o assunto uns dias mais tarde, já com o sol restabelecido. Tratava-se "apenas" de uma aurora boreal, só isso. Um fenómeno raríssimo que só acontecia de muitos em muitos anos. Aquilo do fim do mundo eram crendices de gente ignara, ponto! Ele falava caro, e nunca me esqueci de como me humilhou no solar dos Ferreiras quando ao responder à tia Lice tive a ingenuidade de começar a esponsta com o meu habitual "na minha opinião..." - Ai, o menino tem opinião? gritou ele da sala de estar mobilada com cadeiras de palhinha, onde ouvia música clássica - Caruso? - num velho gramophone de câmpanula, manivela e agulha de metal
Foi assim por esta altura, e sem disso me aperceber, que deixei cair no chão da Pena a minha primeira pedrinha branca.

terça-feira, março 21, 2006

De onde vim, eu sei


De onde vim, eu sei. E também sei quem me lá pôs, porque até sou parecido com o fulano.
Meu nome é Sinfrósio qualquer coisa, o que não vem ao caso e também não interessa, pois documentos não tenho, nem cartões de banco, nem de saúde, nem de Health Clubs, nem doutras merdas assim que só complicam a vida da gente. E Sinfrósio, agora o meu verdadeiro nome, não é o original. Desse já nem me lembro e apenas sei que o herdei de um padrinho horroroso com um nome a condizer. Bom, pensando melhor... o melhor é não pensar porque ainda me ia lembrar e arranjar algo para me preocupar, o que eu menos quero nesta vida.

E também sei onde vim, mas isso não digo, pois quero suscitar disputas entre investigadores intelectuais e outros que tais que irão prolongar-se por séculos, o que sempre será uma maneira de me ir perpetuando, coisa com que sempre ambicionei.

Isto, quando era ambicioso, mas isso já foi há muito. Os ambiciosos são gente que tem, ou julga ter, um presente de merda. É o que eu pensava quando vivia debaixo das asas maternas e ainda alguns tempos depois. Estão todos contra nós, o que quer que seja de nós: penteado, andar, falar, comer, argumentar, hábitos, gestos. Tudo o que sai de nós enjoa, fede. Sentimo-nos a mais naquele mundo e toca de olhar para outros que supomos sucedidos. Isto foi, é claro, antes de Amparo.

Desses tempos pré-históricos guardo umas quantas quantas lembranças, umas espécie de pedrinhas brancas que, olhando para trás me fazem ver com nitididez o caminho percorrido até aqui. Foi o tempo das pedrinhas.