sexta-feira, março 24, 2006

O tempo das Pedrinhas - A Aurora


Eram os dias em que o mundo ia acabar. Lembro-me que a coisa começou precisamente no dia dos meus cinco anos e prolongou-se por mais uns quantos, poucos.
Morrer aos cinco anos não era nada agradável, quando eu vivia rodeado de adultos adolescentes e velhos que já tinham gozado mais da vida que eu. Era uma injustiça porque logo tinha de acontecer comigo. Não é que tivesse grandes projectos, não tinha nenhum. Os meus projectos eram o momento seguinte. Era brincar com a Lurditas, a Rosa o Luís, ou ir até à poça da almotaceria ter com o Mário-paródia, o Agostinha-pera-madura, o Fernando-coveiro, o João-cagaças, o Coelho-ferrador, o Meia-pele e a escumalhita da aldeia que por lá aparecesse, para nos rebolarmos em pelota na terra chocolate e megulharmos logo nas águas de rega, perante os olhares entre pudicos, invejosos e escandalizados dos meninos Montenegros, sempre bem vestidinhos, com roupinhas brancas a rebrilharem entre os veludos de cores variadas, plantados e alinhados junto ao muro alto do quintal do solar. Era ver os meus avós a jogarem à sueca com a D. Bela e o Sr. António, ou o primo Tito com Marta e a enfiar-lhe as mãos pelas pernas acima por debaixo da camilha. Era ouvir o criado Júlio César a contar estórias de outro Júlio César, que matara franceses e bárbaros e tinha sido ele próprio matado por um bruto. Outra possibilidade, Era aproveitar a hora da sesta dos meus avós e a sonolência da Tia Rosa, e baldar-me com o pessoal para o tanque da quinta, na alto da colina atrás da casa, entre o cemitério e a palheira, à sombra de uma mata de acácias, pinheiros e eucaliptos. Era sempre um risco, porque a cena acabava sempre concerto de chinela dado pela tia Alzira na palheira, com o salve-se-quem puder para dentro da palha da, ou a pela encosta abaixo com as roupas num braçado. E eram ainda outras coisas de que agora não me lembro e também não quero estar a inventar tudo.
A notícia aterradora colheu-me de surpresa ao início da noite, depois do jantar. Um jantar que me deu direito a ovo estrelado com batatas fritas, o meu presente de aniversário.
Cheguei à janela da cozinha, um balcão sobre o vale que separa as colinas sobre cujo dorso a aldeia se alonga. A ribeira das nossas banhocas entra no vale vinda de nascente contorna o lameiro frente à casa e ruma ao sul pelo meio do vale que se alarga até entrar noutro vale muito mais largo onde encontra outros ribeiros que a outros se juntam até se encontrarem mais além o rio Mondego. Ou será o Zêzere? Bem, não interessa, todos os ribeiros acabam por acasalar as suas pequenas águas com outras maiores.
Pelo macadame acima, do lado poente, subiam as silhuetas dos avejões, e no céu, sobre elas, um remoinho de luz entre o laranja-pastel e o tijolo-vivo apresentava um por-do-sol tardio, como se o astro se tivesse esquecido das horas da deita.
Essa coisa das horas a mim não me dizia grande coisa. Para começar a minha hora da deita era quando tinha sono ou, o mais tardar, os meus avós se recolhiam. Regia-me então, como agora, pelo levantar, deitar, comer, ir, ficar, brincar, dormir e coisas afins de todas estas.
O estranho daquilo não era só haver sol de noite, era a conjugação do fenómeno com o movimento anormal de beatas e as badaladas persistentes e dolentes que, dei-me então conta, não se tinham calado todo o santo dia.
Quando perguntei à Ti Rosa o porquê de tudo aquilo, disse-me que ia acabar o mundo e o sino era para chamar as pessoas para rezarem e estarem sem pecados quan fossem ter com Nosso Senhor. - E não pedem para o mundo não acabar?, e como acaba o mundo? e nós também morremos?, o os meus irmão? e a minha mãe e o meu pai? e àvó e o avô, e os primos? e a escola também acaba? - Acaba tudo, tudo! é o fim, menino!
E eu aterradíssimo, que não tava nessa de nem chegar ao dia seguinte. Acudiu-me àvó Ninhas a numa gargalhada-se de alva dentadura arreganhada. - Não lhe ligues que é doida varrida. Cale-se sua maluca, não vê que está àssustar o menino?!
A minha avó sabia serenar-me. Eu acreditava em tudo oque me dizia. Até nas estória que contava? - A sério avó, perguntava sempre e elala sempre confirmava, - Sério, filho!
Serenei de imediato, acompanhei a sueca ao serão e adormeci ao colo do avô. Só acordei de manhã e nem me lembrei de que o mundo afinal não tinha acabado. O primo Jéjé, que estudava para engenheiro electrónico e era apaixonado pela minha tia Lita, dizia o Tito, é que veio aclarar o assunto uns dias mais tarde, já com o sol restabelecido. Tratava-se "apenas" de uma aurora boreal, só isso. Um fenómeno raríssimo que só acontecia de muitos em muitos anos. Aquilo do fim do mundo eram crendices de gente ignara, ponto! Ele falava caro, e nunca me esqueci de como me humilhou no solar dos Ferreiras quando ao responder à tia Lice tive a ingenuidade de começar a esponsta com o meu habitual "na minha opinião..." - Ai, o menino tem opinião? gritou ele da sala de estar mobilada com cadeiras de palhinha, onde ouvia música clássica - Caruso? - num velho gramophone de câmpanula, manivela e agulha de metal
Foi assim por esta altura, e sem disso me aperceber, que deixei cair no chão da Pena a minha primeira pedrinha branca.