2 - Leão

Já nem sei há quanto tempo aqui estou. Eu e Amparo. É curioso, lembro-me bem dos tempos anteriores à vinda para o convento, mas se me perguntarem quando vim, já não faço ideia. De então para cá os acontecimentos tornaram-se uma amálgama indistinta de passado e presente. O tempo antigo, linear e datado, deu agora lugar a uma quadrícula ecrãs onde, em cada um, repassa sem descanso a mesma cena. Quadrícula que cresce ao ritmo de cada cena vivida. No último ecrã estou eu sentado ao computador a escrever esta prosa. A cena dura o que durar este acto, incluída a entrada de Amparo com uma caneca fumegante de café com bagaço. Há um ecrã onde os enchidos do fumeiro ardem como tochas enquando um homem e uma mulher, com ar de caseiros, assomam à porta com baldes; noutro, a cama onde eu e Amparo dormimos, ela ressona, tosse espirra, peida-se, vira-se para a parede, volta-se para mim, agarra-me a piça e espicaça-me, queres festa, eu viro-me para ela, viro-a de costas para mim, ponho-a de joelhos e dou-lhe uma de apanha cavacos. Noutro a porta abre-se, Amparo entra com um braçado de lenha, grita-me fecha essa merda questá um frio do caralho, e a seguir dá um coice na porta e atira-me com a molhada para cima e grita-me, prá próxima ou vais tu apanhá-la com os cornos ou morres enrregelado que eu vou é dar de frosques meu cabrão inútil. Aí eu levanto-me do banco junto ao fogão...etc, etc, etc, etc, não vale a pena contar a cena doméstica toda. Estou a vê-la, mas já se sabe como acabam este tipo de cenas.
Para quem não percepciona o real como eu, isto não passará de um puzzle inintelígivel, de idiotice pura ou, se calhar, de pura esquizofrenia. Mas esquizo sei que não é, porque não é a personalidade que se desdobra, mas são as cenas que pairam.
Apenas refiro esta bizarria da minha mente, porque as cenas que visiono acordado me fazem não poucas vezes viajar pelo passado ante-conventual e ali repescar as lembranças que dele me restam. Desta forma acabo por prolongar as cenas com sequências e planos onde tudo se mistura. É o que acontece na cena onde onde o filho do caseiro abre a porta e entra com ele um cão lanudo e escanzelado e a tremer de frio que se vem enrroscar nos meus pés. Faço-lhe uma festa e a seguir vejo-me garoto a correr atrás do Leão pela álea de acessoa à casa da quinta dos meus avós. Leão corre aos saltos para o portão de ferro, a ladrar às ovelhas e aos cães que passam pela ladeira. Corte. Leão arrasta-se atrás do avô Sebastião que se dirige para a vinha de Fernão Pires atrás do cemitério. A avô leva ao ombro a espingarda de cartuchos de dois canos com que costuma ir à caça. Sigo-os de mãos nos bolsos dos calções e olhos fitos nas peladas do leão e nos fios de sangue que lhe escorrem dos genitais. Agora, no canto onde começa a vinha, junto ao muro de pedra, o avô pára junto a uma cova que o criado Artur acabou de abrir ali. O avô baixa-se, empurra o Leão para junto da cova, coloca-o com as patas de um e outro lado da cova e ele ali fica quieto. O avô afasta-se um bocado, pede-me a mim e ao Artur para nos colocarmos a seu lado, aponta a espingarda ao Leão que nos olha com olhos de pedinte e dispara. O Leão cai na cova e eu saio de cena a correr. A porta abre-se de novo, entra o filho do caseiro e o cão que o acompanha vem enroscar-se nas minhas pernas...

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